O quão preponderante o dinheiro é actualmente na nossa vida. Parece que o dinheiro ocupa de repente uma posição central, e nada mais importa. É necessário para a mais ínfima actividade diária desde que se sai de casa (sendo que actualmente até já se pode gastar directamente a partir de casa), até ao retorno ao fim do dia. É necessário para comer , para conduzir, para estudar (!!!!), para obter informação sobre a actualidade, para obter conhecimento, para tudo o que supostamente somos livres para fazer. A verdadeira questão é que nenhum homem será dia algum verdadeiramente livre, existem condicionalismos que actuam muito antes da nossa existência, e que colocam em causa a nossa liberdade; códigos genéticos, factores ambientais, e o mais recente alvo desenfreado de satisfação, a satisfação monetária.
Arrisco me a dizer que o dinheiro é em última instância a âncora pessoal, o que nos prende ao mundo, o que nos impede de ser verdadeiramente livres de todos os condicionalismos da existência humana. Quantos de nós trabalharíamos se não fosse necessário dinheiro para governar uma vida?
Não critico o sistema de renumeração que se obtém como produto de um dado trabalho, sendo aliás mais do que justo ser recompensado por tal, somente discordo da capitalização excessiva, exacerbada de bens essenciais a qualquer comunidade, de bens que deveriam ser mais frequentemente aplicados de forma solidária onde tanta falta fazem. Outros bens como a criatividade, a imaginação, que pedreiros, carpinteiros, todos os profissionais e indivíduos com ordenados mínimos põem em prática todos os dias da sua vida para conseguir ultrapassar dificuldades diárias, para ultrapassar a falta de liberdade que a falta de dinheiro nos impõe. O controlo constante da desesperança que é necessário, a ginástica económica, para criar três e quatro filhos e em muitos casos uma família inteira, sobrando sempre mês ao fim do ordenado. Esse esforço sim deveria ser capitalizado, deveria ser o mais renumerado. Com todos os nossos defeitos e virtudes, penso honestamente que nós, portugueses somos os maiores e tomando as condições actuais em conta, temos de ser mesmo muito bons. Desejava somente era que fôssemos convenientemente renumerados por tal facto.
Não percamos a esperança.