Nem de propósito.
Presidenciais 2006. Aproveitando esta onda democrática em que todos abrem a mente a esta calorosa vaga de esperança no futuro, acreditando no que sentem, e dizendo o que pensam, sobre o estado real de Portugal e dos portugueses, faço aqui a minha análise de todo este assunto segundo o meu fundamentado e criteriado ponto de vista.
O primeiro factor digno de referência, o qual faço questão de esclarecer, reside no facto de que a minha cultura política é um factor ainda em crescimento, por sinal muito imaturo neste momento em que escrevo, impingindo como tal a estas palavras, uma toada não política, nem de fundamentalismo, mas sim de
comentário pessoal, e esses são sem dúvida para mim os mais importantes pela maneira autêntica e única que cada ser humano observa, avalia, compreende e emite os seus juízos.
Como tal, e sem querer entrar em discursos demasiadamente políticos, tais como andar às voltas sem dizer nada, tal como estou a fazer neste preciso momento, enquanto vocês, aqueles que sei que me lêem, estão pregados ao écrã a ler mais estas palavras e a pensar
“então mas este gajo diz o que tem a dizer ou não?”. Enfim, tudo isto para no fundo dizer uma única e simples coisa: Vou ser o mais sucinto e objectivo possível, sem politiquices, nem as hipocrisias que tantas vezes as distinguem.
Como tal, começo por dizer que toda esta campanha eleitoral me suscitou desde o seu começo um enorme sentido e dever cívico. Não só pela crise que o país atravessa (sim, sim politiquice eu sei, mas não resisti), mas também pela situação, não diria crítica, mas de algum modo conturbada que se vive a nível interno partidário, plano no qual, se distinguem vencedores e vencidos (situação completamente escusada do meu ponto de vista).
Passando à análise dos candidatos, em relação a Aníbal Cavaco Silva, demonstro-me sempre indeciso ao tentar traçar um perfil do professor. Se por um lado é bem verdade que à partida para a campanha eleitoral, o seu nome me soava como o mais indicado e melhor preparado para assumir o cargo presidencial, também é verdade que o seu carácter altivo e superior, discurso repetitivo (temperado por algumas bacoradas), proximidade com
“o povo”, quanto a mim pouco sincera, entre outros factores revelados durante esta campanha, me dificultaram a escolha sem qualquer dúvida. Fez uma campanha correcta, sem responder a ataques pessoais nem provocações e transmitindo serenidade do princípio ao fim. E como o povo português gosta
(demasiado) de serenidade!
Em relação ao doutor Mário Soares, pouco tenho a referir, a não ser que não concordo minimamente com o slogan escolhido para a sua campanha eleitoral:
“Soares é fish!” Bom quanto a mim, com aquelas bochechas, poderia quanto muito ser um peixe balão. Balão que inequivocamente teve o seu apogeu em grandes momentos e batalhas em que deu a cara por Portugal. Balão que usou todo o seu ar, nesta campanha eleitoral em ataques aos adversários, ataques muitas vezes com um tom demasiado agressivo e altivo. Balão que rebentou. Balão que escusava de ter rebentado. Não duvido da boa vontade do Doutor Soares em ajudar Portugal, trata-se apenas de uma questão de
“timing” e respeito pelo ridículo, e na minha sincera opinião o Doutor Soares não precisava de passar por esta situação que a partir de um certo momento se tornou previsível, facto que só prova que
tudo tem o seu lugar e tempo na história.
No que respeita aos dois partidos com posição parlamentar, mais definidos à esquerda, confesso que me cativou a disputa entre Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, representantes do Partido Comunista Português e Bloco de Esquerda, respectivamente. Ambos representaram bem o seu papel, diga-se de passagem, Jerónimo na sua pose e discurso anti cavaquista, cativante para com a população comunista, essencialmente trabalhadora, que julgava mais mobilizada. Louça mais sarcástico e irónico, como sempre, e utilizando também os mesmos propósitos anti-Cavaco e anti-governo, tendo por base as suas políticas de esquerda.
Este
“duelo” suscitou em mim particular interesse, por um muito simples motivo, pela de alguma maneira imprevisibilidade do resultado final (que esperava mais equilibrado entre os dois partidos). E se motivos são precisos para o facto de este confronto à esquerda ser para mim tão interessante, temos mais do que os suficientes.
Jerónimo de Sousa trazia por si só a bagagem de um impulso conferido pela excelente relação interna no Partido Comunista Português, tendo apresentado bons resultados nas últimas legislativas e autárquicas, conferindo lhe alguma margem de manobra (que sinceramente esperava menor) em relação ao bloco de esquerda.
Louçã, ainda embalado pelo excelente resultado das últimas legislativas, tentava aqui a sua
“sorte”, com a vontade de testar a força e até mesmo o crescimento do Bloco de Esquerda, perante um partido comunista português que julgava enfraquecido, mas que Jerónimo de Sousa revelou um
“monstro adormecido”. Muito bem conduzido este monstro por Jerónimo de Sousa, este monstro que acordou para um resultado de 8,60%.
Quanto a Garcia Pereira, este senhor que se apresentou como candidato à Presidência da República, fez questão de salientar que a divisão da esquerda concedeu estas eleições a Aníbal Cavaco Silva
(pudera!), e eu concordo, tornando-se esse facto demasiadamente previsível a partir do momento em que Manuel alegre decidiu
(e muito bem) avançar com a sua candidatura.
De referir a
falta de expressão do PSD e CDS-PP nestas eleições presidenciais, apoiaram desde o início Cavaco é certo, que não hesitou em manter-se aparte desse movimento de apoio. Mas a falta de apresentação de candidatos próprios dos partidos à direita, que se encontram neste momento na oposição ao governo, faz qualquer um reflectir acerca do poder e da força real de cada um, especialmente do CDS-PP que apresentou resultados abaixo das expectativas nas últimas legislativas, representando a força de direita de oposição ao governo menos representativa.
E com tudo isto, já deu para perceber que o meu voto foi objecto de muita reflexão e ponderação.
Sim, votei Manuel Alegre, e não tenho qualquer problema em dizê-lo aqui perante todos, tal como ele teve a enorme coragem e discernimento de não ceder ao conformismo e lutar por algo que acreditou desde o início, mesmo tendo sido passado para segundo plano por uma entidade à qual dedicou grande parte da sua vida e da sua luta.
A coragem deste homem de num país tão acomodado a conformismos, e tão conformado a comodismos rompeu com toda uma estrutura de chavões e ideias de alguma maneira pré-concebidas que me faziam desacreditar na classe política. E não é tão baixa quanto isso a quantidade de cidadãos insatisfeita, veja-se a taxa de abstenção de 37%, facto que não implica o não exercer do direito e dever cívico de votar (vota, não sejas idiota).
Votei numa
candidatura definida, e com cujos valores me identificava, não havia como não votar em Manuel Alegre, não havia como desprezar o seu enorme acto de coragem, raro nos dias que correm em que tudo e todos se conformam à existência de interesses maiores (mesmo que esses não representem a melhor opção na melhor altura), em que o Partido Socialista se conformou ao capricho e tentativa de revitalizar um herói nacional cuja época já passou há muito.
Manuel Alegre não aceitou esses interesses e acreditou, delineou e efectou um plano, com ideias em que acreditava, mesmo tendo de assumir uma ruptura com a casa que o viu crescer para a política, casa que lhe impôs aceitar algo em que não acreditava de forma pacífica, mas Manuel Alegre não aceitou e bem.
E é esta a vitória de Manuel alegre,
a vitória das crenças e da boa moral, uma vitória que jamais algum número poderá quantificar, a vitória educada, emocionada e sempre com classe, traduzida numa verdadeira chapada sem mão (as únicas chapadas que interessam), à entidade que também é Manuel Alegre: o Partido Socialista.
Durante o seu discurso notei a nostalgia de Manuel Alegre a emoção de ter conseguido algo em poucos acreditavam, a coragem de romper com algo que amava, porque às vezes é necessário isso mesmo. Notei aquela lágrima no canto do olho, aquela que congratula todos os esforços, aquela que diz
sou aquilo em que acredito e hoje 20,68% acreditaram comigo. E foi bonito, foi bonita a forma apaixonada de lutar pelos seus sonhos, com a qual me identifico.
É caso para dizer:
Podem tirar tudo a um homem mas não lhe podem tirar os seus sonhos.Parabéns Manuel Alegre. E aqui cito o mesmo Manuel Alegre:
"Fica a lição, a esperança, e o exemplo da democracia participativa e do poder dos cidadãos"Pode ser que os portugueses aprendam alguma coisa com isto. Pode ser que aprendam a acreditar.
Pena não ficar no horizonte a ida a uma segunda volta, pena não haver essa oportunidade de medir a força real de Cavaco Silva, contra um Manuel Alegre que merecia esse teste.
E pena, muita pena de provavelmente não voltar a ver aquela rapariga giríssima que estava a ver os nomes na urna de voto (talvez um dia passes por aqui e vejas este texto tão grande que nem sequer leias metade, que nem sequer chegues a esta parte, mas se um dia vires, fica aqui este registo).
E assim me despeço das Presidenciais de 2006 com os meus melhores cumprimentos.
Felicidades pessoais e políticas a Aníbal Cavaco Silva no cumprimento do seu mandato.
Eduardo Cruz
23/01/06