crónicas de um treino de captação
É verdade. Foi ontem, mas as dores musculares ainda hoje me acompanham.
quarta feira 26/10/2005
15:00 h
Termina a aula microbiologia quase uma hora antes do previsto (thank god) , seguindo se às quatro a aula de fisiopatologia.
Vou, não vou, vou, não vou, aproxima se cada vez mais a hora, e na minha cabeça as ideias elevam se a uma taxa exponencial de loucura que me atrofia o pensamento e a capacidade de discernir. Este facto quase me fez desistir da ideia, valeu a coragem e força transmitida pelos dois zibas (obrigado). Na próxima aula falarei com a professora e decerto compreenderá a situação :)
Baldo me a mais uma aula de fisiopatologia, a segunda consecutiva, e sigo a passo já apressado para a cidade universitária, com uma dose redobrada de confiança, mas o pensamento ainda dor-mente.
Paro no parque de "estacionamento de areia", troco de mala e sigo a viagem apressada. olho o relógio e são 15:20 h , FODASSE, penso para mim mesmo! Vou chegar atrasado outra vez ... Porque é que nunca chego a horas a sítio nenhum ?
Ah caralho !!! Tenho de corrigir isto para meu próprio bem, tenho de ser capaz ...
Apeteçe me gritar mas a garganta cerra se e canaliza a energia para os meus passos cada vez mais apressados.
Sigo passo ante passo, ideias estúpidas, e mais ideias estúpidas cruzam me a mente. Sinto o coração a um ritmo tão frenético, que quase me rebenta o peito. Vejo o estádio universitário e penso no que não devo, nesta altura em que devia estar concentrado. É incrível a nossa incapacidade de filtrar informação nestes momentos (desabafo). Sinto me um cocktail explosivo de ideias e sentimentos, prestes a rebentar, neste momento em que nada para além de jogar basquetbal, me deveria cruzar o pensamento.
Vejo o pavilhão ao fundo, finalmente respiro de alívio e olho para o relógio, 15:35 h. Não cheguei assim tão atrasado quanto isso. Chego, abro a porta e entro ainda a medo, de um mundo que tem tanto de habitual como de desconheçido, e como esse desconheçido se torna monstruoso agora.
Corro para um balneário e visto me, é nesta altura que os nervos se misturam com a excitação e a vontade de jogar, e é neste momento que este cocktail mais explosivo do que nunca ganha utilidade.
Sigo o caminho para fora do balneário, de olhar apontado para o chão e entro no campo. Que saudades! Quase me tinha esquecido daquele feeling, as luzes, o campo, tudo era da maneira como eu me lembrava, desde aquele último jogo. Os nervos à flôr da pele, eram me novamente familiares, agora ainda mais do que nunca, visto estar num treino de captação. Faço o aqueçimento e tento ver alguém conheçido, mas as faces não me dizem nada para além dos olhares cheios de um misto de esperança e medo. Olhares como o meu.
O treinador chama todos os jogadores, começam me a tremer me as pernas, as mãos suam. Merda! Destesto quando as mãos suam, torna se bastante incómodo e difícil de agarrar a bola.
Faço um esforço para me concentrar no que o treinador diz e distingo entre as suas palavras:
"Nada de apresentações agora. Essa parte fica para o fim, porque estamos apertados de tempo ... quatro equipas de seis jogadores cada e vamos jogar nestes dois campos" ...
Curto e directo, gostei. Escolha de equipas, sou dos primeiros a ser escolhido, não quer dizer nada mas espero não desiludir esta espécie de voto de confiança. Conheço os meus colegas de equipa, falamos um pouco tentando deixar o basquet de parte, tentado quebrar o gelo. Combinamos estratégias, defesas, e está pronto a começar o jogo. Os potenciais de cada uma das minhas células pareçem dar me energia infinita e atraiçoar me ao mesmo tempo, os nervos, os tremores, o medo, são me novamente familiares são novamente uma parte de mim e do meu jogo, uma parte sem a qual o basquet se tornaria sem dúvida um desporto desinteressante ...
Começa o jogo, e tudo se transforma, tudo se tranforma gradualmente na minha vontade e no meu orgulho de vençer, primeiras jogadas, primeiros passes, primeiros dribles, primeiras entradas para o cesto, primeiros cestos marcados, primeiro passe errado!
Não interessa, há que correr atrás do prejuízo, ouço gritos de incentivo dos colegas de equipa, e lembro me de uma frase que alguém que respeito muito sempre me disse, "defender é sofrer".
Defendo e sofro, ataco e corro, marco, ataque, defesa, ataque, defesa, ataque, defesa e nisto apareçem os primeiros sinais de cansaço. Dói me o corpo detesto este sentimento de que "todo o oxigénio do mundo não chega para alimentar a minha vontade", potencia a fraqueza, a impotência. Coloco me mais à defesa para aliviar um pouco o ritmo, segue o jogo e já me sinto melhor, segue o jogo e já me sinto cansado, pausa para beber àgua finalmente.
Trocamos de campo e continuamos a jogar, gradualmente esqueço me do cansaço e liberto cada vez mais aquilo que sei fazer em campo, trocamos de campo uma e mais uma vez debaixo da ordem e do olhar atento do treinador. Jogo, jogo e mais jogo, segudos, minutos, horas passam e eu esqueço tudo, tudo menos a minha vontade e o meu orgulho. Jogada concluída com cesto e caimbra no gémeo da perna esquerda, caio a malta vem ajudar, um colega estica me a perna e vamos jogar novamente ...
Uma hora, duas horas, três horas ...
Incrível como o tempo passou depressa, incrível como consegui transformar todo aquele sentimento de incerteza e medo em algo que me foi benéfico.
Quase me tinha esqueçido de como era entrar num campo, quase me tinha esquecido de como era bom jogar basquet num campo inteiro, quase me tinha esqueçido, mas não esqueçi.
Intriga me porque é que não transformo todos os meus medos, muitas vezes sem fundamento em acções que me façam bem, tal como fiz hoje ...
O treinador dá uma pequena palestra explicando todos os pormenores da equipa e dizendo o que se esperava mas toda a gente queria negar "27 jogadores no treino para 9 lugares". Noto um ar cabisbaixo e preocupado em toda a gente. O treinador anuncia que até sexta feira seríamos avisados se teríamos ou não lugar na equipa. Entrego lhe os meus dados e resta me esperar.
Penso: "Sei que é praticamente impossível ficar na equipa, mas sonhar fez me bem, fez me lembrar de alguém que já fui, de alguém que fazia desporto frequentemente e que se estivesse em forma teria outros argumentos para mostrar. Enfim não desespero com isso, até porque dei o primeiro passo, o primeiro passo na luta contra a falta de tempo e contra as desculpas que arranjamos sempre, para não fazer as mais variadas coisas, coisas essas que muitas vezes são essenciais à nossa vida familiar, social, cultural, deportiva e a todas as restantes vertentes da vida.
Apenas quero dizer que tudo é possível se nos organizarmos bem, e que não há limites desde que acreditemos. Desde que acreditemos que podemos transformar o medo e ansiedade em algo proveitoso e benéfico para nós ...
Embora todas as dificuldades, quero continuar a acreditar nisto ...
O meu obrigado aos impulsionadores desta aventura."
Saí do pavilhão com os calções ainda vestidos e senti a agradável brisa da tarde, tudo perfeito até chegar ao carro e ... trânsito.
Cheguei a casa, tomei banho, jantei e dormi, tal como vou dormir agora ...

